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Entre Saudade e Esperança: A Travessia de Quem Imigra


Entre Saudade e Esperança: A Travessia de Quem Imigra
Adriana Pessoa Adriana Pessoa
3 de março de 2026
Quando alguém imigra, não leva apenas malas. Leva histórias, cheiros, sons, ritmos, maneiras de falar e de se relacionar. No novo lugar, muito do que antes era espontâneo precisa ser reaprendido e ressignificado. A língua já não flui com naturalidade. As piadas não são imediatamente compreendidas. As regras implícitas das relações sociais não são óbvias. O que antes acontecia sem esforço passa a exigir presença, atenção e energia.


A ansiedade, muitas vezes, nasce desse desencontro entre o que se era e o que ainda está se tornando. Ela se alimenta da incerteza, da comparação constante e da necessidade de dar conta de tudo ao mesmo tempo. A mente tenta antecipar o futuro: “E se eu não conseguir?”, “E se eu não me adaptar?”. O foco sai do que está acontecendo agora e se desloca para o controle e a antecipação de cenários possíveis. Quando esse movimento se intensifica o novo contexto, para além de desafiador, passa a ser emocionalmente doloroso.


Em alguns casos, essa ansiedade deixa de ser apenas uma reação pontual à mudança e passa a interferir na vida cotidiana: dificuldade de concentração, irritabilidade, evitação de situações sociais, sensação de inadequação persistente.


Reconhecer isso é importante não como sinal de fracasso, mas como indicador de que a travessia está exigindo mais do que se pode sustentar sozinho.
A adaptação, como sabemos, não acontece por força de vontade ou por cobrança interna. Ela se constrói na experiência, no contato com o novo.


Pequenos momentos vão criando confiança: conseguir resolver uma situação sozinho, entender uma conversa, sentir-se à vontade em um ambiente antes estranho. São passos discretos, mas significativos. Aponta que o desconhecido começou a ganhar contorno e a estranheza cedeu lugar à familiaridade.


Permitir-se errar faz parte desse processo. Errar na pronúncia, na escolha das palavras, nos códigos sociais. Cada erro pode ser vivido ou como prova de incapacidade, o que tende a alimentar a ansiedade, ou como parte natural da aprendizagem. Buscar apoio também é essencial. Conversar com quem já atravessou processos semelhantes, manter vínculos com a cultura de origem, procurar acompanhamento profissional quando necessário, especialmente quando a ansiedade se torna persistente ou limitante, tudo ajuda a sustentar a travessia e a recuperar o senso de segurança.


Imigrar é viver um processo de reorganização. Aos poucos, o que antes parecia uma ruptura vai se transformando em continuidade. Não é preciso deixar o passado para trás para pertencer ao presente. É possível incluir novas referências sem apagar as antigas.


Com o tempo, aquilo que era novo e instável se torna base. A saudade segue presente, mas deixa de ser peso constante. A esperança se ancora nas pequenas experiências que confirmam a própria capacidade de adaptação. Nesse movimento, constrói-se uma forma mais integrada de estar no mundo, no qual diferentes referências passam a compor nossa história.

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