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Rede de cuidado: quando o sofrimento se intensifica


Rede de cuidado: quando o sofrimento se intensifica
Adriana Pessoa Adriana Pessoa
August 30, 2026
Nem sempre percebemos quando estamos nos aproximando de um momento de maior fragilidade. Aos poucos, podemos perder o interesse por atividades que antes faziam sentido, nos afastar das pessoas, sentir a energia diminuir ou ter dificuldade para imaginar possibilidades para o futuro.
À medida que o sofrimento se intensifica, o campo de possibilidades pode se estreitar. Recursos que antes estavam disponíveis parecem mais distantes, vínculos podem perder sua força e aquilo que poderia nos ajudar nem sempre consegue ser percebido.
Por isso, pensar no cuidado antes que a crise se intensifique pode fazer diferença. Ter pessoas de confiança, saber onde buscar ajuda e reconhecer aquilo que nos sustenta são formas de construir uma rede que possa ser acessada justamente quando estivermos com menos recursos para fazê-lo.

O sofrimento acontece nas relações

A partir de uma perspectiva gestáltica de campo, o sofrimento não é compreendido apenas como algo localizado no indivíduo. Ele se configura na experiência da pessoa em seu campo de relações, quando suas possibilidades de contato consigo mesma, com os outros e com o mundo se transformam.
Esse campo também se transforma na maneira como as pessoas respondem a ela, se aproximam, se afastam, acolhem, exigem ou deixam de oferecer o suporte necessário. É nessa dinâmica de influências mútuas que novas possibilidades de contato podem surgir ou se tornar mais restritas.
Isso nos convida a deslocar o olhar: não apenas para aquilo que acontece “dentro” da pessoa, mas também para o que acontece entre ela e o mundo, e para a forma como o mundo responde a ela.

Podemos então nos perguntar:
O que mudou na minha maneira de estar com as pessoas e com o mundo?
Como as pessoas têm respondido a mim e ao que estou vivendo?
Quais relações estão se tornando mais distantes? E quais ainda permanecem disponíveis?
Em quais relações me sinto acolhido e compreendido?
Onde ainda encontro apoio, acolhimento ou possibilidade de contato?
O que, nas minhas relações, parece ter perdido o sentido ou se tornado mais difícil de acessar?
Olhar para essas relações pode nos ajudar a compreender não apenas o que está acontecendo com a pessoa, mas como o campo de experiência está se configurando e quais possibilidades de suporte ainda estão presentes.

O apoio que não ajuda na prática
Muitas pessoas em sofrimento intenso buscam ajuda mais de uma vez, mas, muitas vezes, se deparam com respostas que dão a impressão de que seu sofrimento não é compreendido. Podem ouvir que precisam “reagir”, “pensar positivo”, “se distrair” ou simplesmente “ter força”. Às vezes, pessoas próximas tentam estimular atividades, encontros e mudanças de rotina, mas não conseguem compreender que, naquele momento, nada disso parece fazer sentido.
Não se trata de falta de vontade ou de resistência. Quando o campo de possibilidades está muito estreito, até mesmo aquilo que antes oferecia prazer, esperança ou conexão pode parecer vazio ou inacessível.
Por isso, oferecer cuidado nesses momentos é o oposto de incentivar a pessoa a fazer algo. Significa, antes, aproximar-se de sua experiência sem apressá-la, reconhecer a profundidade do sofrimento e tentar compreender o que se tornou impossível ou sem sentido para ela.
Muitas vezes, apenas estar disponível é o melhor que podemos oferecer.
E não é fácil escutar sem julgamento, permanecer aberto ao que o outro tem a dizer e respeitar seu tempo. Mas essa atitude pode gerar conexão, a sensação de “alguém me entende”. E essa experiência de ser reconhecido pode, pouco a pouco, abrir uma possibilidade de conexão com a vida e permitir que a esperança volte a encontrar espaço.

Um olhar atento também de quem cuida
Para os profissionais que acompanham pessoas em depressão, essa atenção é igualmente importante. Uma crise depressiva se configura de maneira gradual, quase silenciosa, até que as mudanças se tornem mais evidentes.
O tempo da sessão pode ir se lentificando. O corpo parece cada vez mais pesado. A fala, mais arrastada. A desesperança e os momentos de silêncio ocupam cada vez mais espaço. Tudo parece expressar um contexto de isolamento, perda de interesse ou prazer, redução de energia e um empobrecimento das possibilidades percebidas.
Nesse contexto, cuidar é perceber o que acontece na própria experiência com o cliente, sem perder o próprio chão diante da atmosfera depressiva que parece permear tudo ao redor.
É preciso sustentar a presença sem confluir com o desânimo, permanecendo próximo o suficiente para escutar o que perdeu o sentido, reconhecer o que ainda pode sustentá-lo e ajudar a manter aberta alguma passagem para o outro, para o mundo e para aquilo que ainda pode vir a ser possível.
Nesse contexto, cuidar significa simplesmente permanecer presente no relacionamento com o outro. Não apressá-lo ou querer lhe tirar daquele lugar.  Isso gera vivência de respeito.

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